Baleia Azul ou Baleia Rosa: a escolha de uma vida inteira

 

Era uma vez um homem, conhecido por ser bom e honesto, que encontrou um anel mágico. Sempre que usava o anel, ficava invisível. Surgiu a tentação: agora, se quisesse, poderia fazer coisas erradas, porque não seria descoberto nem punido. O homem cedeu à tentação e passou a agir sem escrúpulos, transgredindo todas as normas, em benefício próprio, sem se importar com o que causasse aos outros.

Esse é um resumo da lenda do pastor Giges, contada por Platão em “A República”. O filósofo problematiza se os indivíduos são bons ou justos por uma escolha natural, ou só porque há leis e vigias. A questão é: se não houvesse guardas, nem câmeras, e não pudéssemos ser vistos nem julgados pelos demais, o que cada um faria?

A lenda de Giges ajuda a refletir sobre certos fenômenos observados nas redes sociais. Sob a máscara de identidades virtuais verdadeiras ou falsas, e agindo detrás de monitores, muitos usuários têm a sensação de vestir o anel da invisibilidade, agindo sem qualquer limite: incitam a violência, publicam ofensas, externam todo tipo de preconceito. Por não ter, ainda, formas estruturadas de vigilância, controle ou punição, a internet se converte muitas vezes num território de maldades.

Enquanto uns se escondem, outros anseiam exatamente pelo contrário: retirar o anel. Precisam ser vistos, a qualquer custo, na nova moeda social que é feita do número de curtidas, comentários e compartilhamentos que você alcança – mesmo que, para isso, seja necessário fazer loucuras, como as propostas na Baleia Azul.

A Baleia Azul não é uma brincadeira: envolve infligir dor, provocar risco de morte, desafiar ao suicídio. Além dela, existem vários outros jogos macabros. Se sempre houve grupos de adolescentes que se exibiam ao brincar com o perigo, agora essas práticas se tornam virais e o exibicionismo ganha, pela web, proporções gigantes. Isso exerce um incrível poder de sedução cujas principais vítimas têm sido adolescentes que passam por alguma fase especialmente difícil, por exemplo por estar em depressão, por encontrar nessas práticas uma forma de pedir ajuda, ou até mesmo por quererem ser aceitos e admirados no grupo de amigos.

A discussão que veio à tona com este desafio trouxe alertas importantes para as famílias, para que monitorem mais o uso da internet e, sobretudo, conversem com os filhos, num clima de abertura e acolhimento. Vale também para as escolas, que devem incluir nas aulas uma educação para o uso responsável e seguro da internet.

O fato é que, depois da Baleia Azul, surgiram alguns antídotos, como a corrente da Baleia Rosa. São 50 desafios “do bem”, como perdoar um amigo, enviar uma mensagem de positividade ou olhar-se no espelho e agradecer. O que está no fundo do jogo é um convite a uma nova atitude de vida. Talvez por isso tenha menos chances de viralizar, num contexto em que ser uma pessoa correta, um excelente aluno ou um profissional sério e estudioso anda em baixa, na invertida escala de valores que premia os “espertos”, os “malandros” e os que sabem levar vantagem.

Promover coisas ruins, como a Baleia Azul, os preconceitos, as agressões e linchamentos virtuais, ou potencializar o que é bom e edificante, como pretende a Baleia Rosa é, simbolicamente, a opção ética de uma vida inteira. No interior dessa escolha estão as questões de Platão: faremos as coisas certas porque de fato queremos, ou por causa da opinião dos outros? Fazer coisas boas nos deixará mais felizes? Ou, atualizando para o ambiente das redes: usaremos inclusive as tecnologias para promover o que é bom, mesmo que isso não viralize, não ganhe curtidas e até possam nos ver como chatos e desinteressantes?

O debate ético precisa ser levado para casa e para as aulas. Não para dar lições moralistas sobre o que é certo ou errado, mas para incentivar o questionamento sobre o porquê e sobre as consequências de nossos atos e nossas escolhas, e refletir sobre os valores que estão na base do que fazemos. A discussão central é: quem diz, afinal, o que é bom ou mau, certo ou errado? Se somos livres, o que nos leva a escolher entre o bem e o mal? A lei, ou nossa consciência? Quem é o juiz da sua vida: Deus? Sua família? A comunidade virtual? Você mesmo? Se aprendêssemos a questionar tudo isso desde cedo, inclusive no uso das redes sociais, talvez nosso mundo tivesse menos vigias, menos câmeras e mais motivos de esperança.

Foto: Jogo da Baleia Rosa despertou a curiosidade de crianças em São Carlos (Foto: Barbara Ordonho/Arquivo Pessoal)

Fonte: G1 Educação

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